Padre Ticão morreu na noite de ontem após ser internado, na quarta dia 30, no hospital Santa Marcelina, por uma crise de hipertensão.
Ele era cardíaco e vinha passando por um momento conturbado de perseguições políticas e ameaças por ser um padre humanista abordando a questão polêmica da Cannabis medicinal em sua a sua liturgia.

Teve uma longa trajetória no sacerdócio: já se vão 42 anos, dos quais 38 a frente da igreja de São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, Zona Leste de São Paulo. Há tanto tempo na região, o padre ficou conhecido pelas lutas que encabeça ao lado do povo, notadamente as causas sociais de moradia e saúde. Ele deixa sua paróquia órfã de um trabalho de acolhimento de pessoas que buscavam ajuda para diversas questões que não encontravam em outros lugares, como saúde, educação, falta de moradia. Sua última vitória foi a construção de uma escola técnica no lugar onde seria construído um presídio na Zona Leste de SP.

“Além de ser um padre ativo, ele tinha muita escuta, não ficava na superfície dos problemas sociais da sua paróquia e por isso acabou incomodando a hierarquia católica paulista mais conservadora com questões como remédios a base de Cannabis” diz Margarete Brito, advogada e coordenadora executiva da Associação de Pacientes de Cannabis, Apepi.

O Padre Ticão faz parte de um grupo da igreja católica considerado mais progressista, assim como seu amigo o Padre Julio Lancelotti que é conhecido pela polêmica em ajudar moradores de rua com ações contrárias à políticas consideradas higienizas.

Como demonstra o vídeo (https://www.rainhamaria.com.br/Pagina/25799/A-erva-santa-do-padre-Ticao-Missa-da-Maconha-Como-e-que-e-) , o Padre Ticão estava sendo perseguido há algum tempo por levar suas posições a favor da regulamentação da Cannabis para uso medicinal no Brasil para dentro da sua igreja. Além de cursos de capacitação, ele realizou no dia 06 de dezembro, uma missa com relatos de pacientes que recebem os benefícios do uso de remédios à base de Cannabis, com uma simbólica distribuição de sementes.

Ele, assim como Ghandi e Martin Luther king, era a favor da desobediência civil pacífica, e suas posições nas defesas dos mais pobres, necessitados e nas defesas das causas sociais, como o da Cannabis medicinal, demonstram quanto suas atitudes eram revolucionárias.
Em tempos sombrios como esse, em que precisamos de mais padres humanistas, a perda do Padre Ticão é irreparável e, assim como a comunidade da Zona Leste, todos os brasileiros espera que haja substitutos com a sensibilidade e a coragem para dar continuidade aos trabalhos que ele vinha desenvolvendo.

Padres como Ticão e Julio Lancelotti ao criticar o modelo de organização socioeconômica que valoriza princípios opostos ao cristianismo como o individualismo e gera desigualdade social e miséria, saía das “caixas”, estereótipos e dos preconceitos aos temas e se abria a dimensão humana de olhar para as reais necessidades das pessoas, com a coragem de defender e pregar suas ideias, e assim como Jesus Cristo, acabam sendo perseguidos por defenderem o amor ao próximo. São padres que abraçam o verdadeiro sentido cristão de amor ao próximo.

Historicamente, embora o movimento religioso socialista dentro da igreja sempre tenha sido um movimento minoritário, foi de grande importância, principalmente para o desenvolvimento social e democrático, no combate aos grupos fascistas e na redemocratização em países como Portugal e Brasil, além de trazer à tona a discussão da relação entre a Igreja, os trabalhadores e o socialismo cristão.

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